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Os portugueses - Fernando, o homem das chegas de bois

Fernando Moura, barrosão de gema, é há muitos anos uma figura incontornável das chegas de bois em todo o concelho de Montalegre. Autor de vários livros, um dos quais sobre as suas «melhores chegas», Fernando relata tudo como se de um jogo de futebol se tratasse para a Rádio Montalegre e Tv Barroso: «Já estão a torrar, vai ser uma chega brava?»

Nuno Ferreira | terça-feira, 6 de Dezembro de 2011

Em Montalegre e na diáspora barrosã não há quem não conheça e admire Fernando Moura, 81 anos, também conhecido por Fernando «do Barracão». É ele quem organiza e relata em directo para a Rádio Montalegre e a TV Barroso o anual Torneio de Chegas de Bois Barrosos.

Fernando, que apenas estudou até à quarta classe e com dificuldades, é um auto-didacta: Foi pastor, trabalhou ao balcão do comércio do pai, em Barracão, ciclista, caçador, distribuidor de produtos regionais, gestor de um posto de gasolina e representante de uma seguradora. Escreveu diversos livros, entre eles «Barroso e As Chegas de Bois», «A Vida de Um Barrosão» e «Cruzeiros e Alminhas do Concelho de Montalegre». Fundou a associação «Boi do Povo», o clube de caça e pesca local e a associativa de caça de Leiranco.

A paixão pelas chegas de bois começou muito cedo, na aldeia de Barracão, onde nasceu a 14 de Novembro de 1930 numa família de seis irmãos: «Íamos 20 quilómetros a pé, por caminhos, para assistir a uma chega em Vilar de Perdizes. E todos tínhamos um pau para assistir às chegas e os bois eram os bois do povo de cada aldeia».

A aldeia de Barracão era escolhida, por quem transportava as manadas para o Porto, como local de paragem e abrigo. «O gado fazia 28 quilómetros a pé até à estação Tâmega, parava no Barracão». De noite, os guardadores do gado a dormir, Fernando e os amigos iam escolher o maior e mais forte boi que estivesse ali de passagem e punham-no a lutar com o de Barracão. «Aí se via se o nosso "podia" ou "ficava mal". Nas chegas é assim, o boi ou "pode" ou "fica mal».

As coisas passavam-se sempre entre a meia-noite e a uma da manhã para apanhar os condutores do gado adormecidos. Por vezes, a chega não corria bem. «Às vezes, escapavam-se da chega e iam estrada acima. Outros eram maus. Uma vez um não queria sair, começou a bruar, os guardadores deram com o barulho, ainda levamos umas valentes vergastadas».

Naquele tempo, cada chega cada zaragata. «Uh, havia muita rivalidade entre as aldeias, havia sempre rixas, rachavam-se uns aos outros. A chega era marcada a meio caminho entre uma aldeia e outra e ia tudo a pé, era uma romaria. No fim, zaragata...»

A rivalidade estendia-se ainda às festas e à revista militar: «A revista era em Montalegre. A malta nova ia a pé. No caminho, encontravam-se com os das outras aldeias e lá começava a cocada».

Em 1945, conta Fernando, o presidente da câmara decidiu que não se realizavam mais chegas de bois sem a presença da GNR. «Passou a ter de se marcar a chega e avisar a GNR. Mas se fosse uma aldeia grande, eram precisos por exemplo uns 15 guardas». Resultado: «Quando o pessoal não rachava uns nos outros, era a guarda que começava à coronhada».

Ao longo dos tempos, Fernando foi registando as chegas com uma paixão e dedicação inusitada. Começou por tirar milhares de fotografias, até ao dia em que um amigo emigrante nos Estados Unidos da América lhe ter oferecido uma máquina de filmar. A princípio, não foi fácil. As chegas ainda eram muito marcadas pela rivalidade entre as aldeias e os respectivos bois e por vezes havia zaragata. Um dia, Fernando, envolvido nos acontecimentos, levou da GNR e ficou com a máquina partida.

Há bastante tempo que as chegas de bois barrosãos são organizadas com civilidade e por detrás de gradeamento. Fernando faz os seus inimitáveis relatos para a rádio e TV locais sem constrangimentos: «Ora bem, o boi amarelo já tem os cornos no ar…daqui a pouco estão a torrar».

* Abrimos no Café Portugal um novo espaço. Chamamos-lhe «OS PORTUGUESES». São retratos de pessoas que vivem no país real, sejam eles pescadores, artesãos, pastores, músicos, encenadores ou agricultores. Homens e mulheres que povoam o nosso território de norte a sul e resistem ou procuram resistir à contínua evasão para as grandes cidades do litoral. Pessoas que mantém a tradição, a cultura popular, os saberes que sempre moldaram a nossa identidade. Outros, muito simplesmente têm uma história de vida para contar, tenha sido no campo, no mar, no pequeno comércio, em explorações mineiras ou na vida associativa.
 

  

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