O Centro Cultural Roque Gameiro em Minde, no concelho de Alcanena, situa-se numa pacata praça. Desde o edifício, protegido pelas sombras generosas de um jardim, ouve-se uma lingua diferente. Numa sala os alunos da Professora
Vera Ferreira aprendem o
calão minderico, ou a «Piação dos Charales do Ninhou». A variedade linguística de Minde tem as primeiras referências escritas pelo final do século XVII, início do século VXIII. A professora e investigadora Vera Ferreira explica, contudo, que não significa que o minderico tenha obrigatoriamente surgido nesse período.
Vera Ferreira recua na
história local e encontra uma explicação para o aparecimento da «Piação dos Charales do Ninhou». A investigadora fala de uma «língua de defesa» e atribui o surgimento do minderico «ao aumento da popularidade das mantas mindericas no século XVI e o consequente aumento da actividade têxtil. Os mindericos começaram a frequentar feiras e mercados por todo o país com um grande espírito corporativista. Para protegerem e defenderem o seu negócio e tirarem mais proveito das transacções, os cardadores e os comerciantes de Minde começaram a usar o minderico». Ou seja, na génese o minderico era

uma construção de palavras e expressões que permitiam aos membros da comunidade falar entre si sem darem a conhecer o significado dessa comunicação a outros, os de fora. Com o tempo o minderico acaba por extravasar o âmbito corporativista, alargando-se a toda a comunidade.
Alzira Roque Gameiro directora do Museu de Aguarela Roque Gameiro é outra apaixonada pelo minderico e frequentadora assídua das aulas. É com entusiasmo que afirma percebê-lo cada vez melhor. «Começou como uma linguagem aberta apenas a um determinado grupo social. A partir daí foi enriquecendo de tal maneira que hoje o minderico não se limita só aos termos relacionados com o comércio, permitindo alimentar qualquer tipo de conversa» explica a aluna que fala minderico desde criança. Uma vez por semana os perto de 90 alunos, de proveniência muito heterogénea e com idades entre os seis e os 60 anos, sentam-se nas cadeiras para assistir à «Piação dos Charales do Ninhou». As aulas fazem parte de um projecto que nasceu bem longe, na Universidade de Regensburg, inserido no Programa de Documentação de Línguas Ameaçadas (DoBeS). O projecto de documentação e revitalização do minderico é apoiado financeiramente pela Fundação Volkswagen. As aulas arrancaram pela primeira vez no Centro Cultural Roque Gameiro em Março de 2009.
Vera Ferreira recorda o dia que teve contacto com esta variedade linguística. «O meu pai (Bauduíno de Sousa Ferreira), corria o ano 2000, recebeu de um colega, na Batalha, um pequeno dicionário com alguns vocábulos de minderico» este pequeno livro com estranhos vocábulos viria a conduzir a professora ao misterioso mundo do minderico. «Foi esse livrinho que há quase uma década atrás veio despertar todo o meu interesse pelo minderico bem como o vontade de o estudar a outros níveis» acrescenta.
Como se manteve vivo o minderico até aos dias de hoje? Vera Ferreira atribui a preservação da variedade linguística ao isolamento geográfico de Minde. A freguesia situa-se num vale rodeado pela Serra de Santo António e a Serra dos Candeeiros. O contacto com as vilas vizinhas era praticamente inexistente. Neste momento é difícil estimar de forma clara do número actual de falantes.
Certo é que o minderico é uma variedade linguística muito ligada à terra onde nasceu e à associação de lugares, história local e costumes. A directora do Museu de Aguarela Roque Gameiro é peremptória ao afirmar que «se não encontrarmos a palavras o poder criativo leva-nos a rodeá-la com outras imagens da própria terra». Alzira Roque Gameiro exemplifica dizendo que «televisão em minderico diz-se «figurona do Mindinho» porque Minde fica rodeado de superfícies elevadas, e uma das antenas de televisão está num sítio muito rochoso que se chama mindinho. A antena tem um ar de dominar todo o espaço, que faz figura de gente grande e daí figurona do Mindinho», conclui com satisfação.
Já agora, um «Zé Pedro» é um bigode, um «terraizinho» é uma criança. Se for um «terraizinho judaico», é o Menino Jesus. Já uma «alexandrina» é uma fotografia e um «carranchano», um amigo. E, se alguém tocar um «renhomnhom», está a toca uma gaita-de-foles.
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