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Museu de Silgueiros - Um elogio à etnografia portuguesa

No Museu de Silgueiros, perto de Viseu, conta-se, através da etnografia, uma parte da nossa história. Entre paredes recuamos no tempo. Uma época com recursos e soluções diferentes para questões universais e intemporais. Através do traje e artefacto o Museu de Silgueiros ajuda-nos a perceber, por exemplo, a relação com a higiene e intimidade; os hábitos à mesa; a atitude perante o nascimento. António Pires, professor reformado, é o guardião deste património.

Sara Pelicano | quarta-feira, 22 de Julho de 2009

De Viseu à aldeia de Passos de Silgueiros são pouco mais de dez quilómetros. O que se ganha com esta curta distância é a diferença entre dois mundos. Viseu tem ares de capital de distrito; buliçosa, com um trânsito atrevido e um certo cosmopolitismo. A freguesia de Silgueiros, pouco mais de quatro mil habitantes, é outro espaço e outra vivência. É, também, oportunidade para se perceber, através dos artefactos, dos livros, das palavras, outros tempos. No coração da localidade reside a Associação de Passos de Silgueiros, Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS), dirigida por um homem com genuína paixão pela terra, o inspector escolar António Pires. Ao fim de 42 anos dedicados ao ensino, António Pires regressou à terra natal.

O edifício da Associação destaca-se no casario. Estrutura robusta, fachada branca e alta, muitas janelas, percebendo-se luz interior. Dentro, António Pires recebe-nos. O comedimento inicial, rápido se transforma em entusiasmo. Chegámos ao seu território, ou seja, às muitas histórias que tem para desenrolar sobre as gentes e a terras. Se o Museu Etnográfico de Silgueiros é um monumento ao Folclore (entenda-se «ciência das tradições e usos populares»), António Pires é a vida em palavras do que corporiza esse folclore. O «inspector», para início de conversa, explica que «o folclore anda muito mal tratado. Serve para tudo até para ligar à política». António Pires envereda por um discurso pedagógico, cativante para explicar os pilares que constroem o folcore: «popular, tradicional, universal e de autor anónimo».

O semblante carregado é substituído por um sorriso. António Pires fala, então, da Federação Portuguesa de Folclore, onde preside à Assembleia-Geral. Em 1978 nasceu um grupo folclórico e a partir de então, diz António Pires, «foi uma caminhada brutal no domínio da cultura tradicional». A pouco e pouco juntaram material, que se foi guardando na casa do inspector até ao momento em que, como nos diz «não tinha espaço para receber os amigos». Fala, então, do Museu de Silgueiros, casa para um vasto património, recolhido, com muito esforço, por alguns membros da Associação. «Há três formas de conseguir as coisas: pedindo, comprando e roubando. Tenho aqui peças adquiridas das três formas», conta em jeito de brincadeira, enquanto abre a porta de acesso a outros tempos e outros espaços.

«Chapéus há muitos»
Para além de todas as catalogações, a atenção que se sente haver em cada objecto exposto parece ser a principal metodologia na mostra no Museu de Silgueiros. Há uma ordem que fluiu ao ritmo do próprio crescimento da instituição. «Guardamos aqui marcas culturais do povo. O pensar, o viver, o agir», explica António Pires. Pelas escadas que conduzem ao primeiro andar do museu, expõem-se artefactos. «Colocamo-las por aqui porque começamos a ficar com falta de espaço. O museu ocupa 400 metros quadrados», sublinha António Pires. Repentinamente pára nas escadas. Em volta exibem-se brinquedos de lata, antigos utensílios agrícolas e mecanismos de defesa. Olhares novamente postos em António Pires que segura na mão uma espécie de arma. «Sim, é mesmo uma espingarda. Espingarda de carregar na boca. Enterrava-se o punho na terra. Mais ou menos a meio do cano prendia um fio que ficava estendido pela terra. O engenho servia para apanhar possíveis intrusos que invadiam as vinhas e o meloal. Ao pisarem o fio, a arma disparava e levavam uma chumbada de sal nas pernas. Por vezes eram carregadas também com feijão miúdo», explica o antigo docente. A entrada do museu permite uma incursão pela vida do grupo folclórico. Lembranças de viagens e gentes conhecidas, mostra de cartazes de festivais onde participaram. Estes são por si só uma atracção, revelando a evolução gráfica e das cores dos cartazes. De todo o acervo guardado, o «inspector» confessa que a história dos trajes é aquela onde sente mais à vontade. Desenrola, então, memórias que revelam um país diferente daquele que hoje conhecemos. Centra atenções nos botões, elemento importante do traje. Em Passos de Silgueiros, guardam-se 95 mil botões, «contados um a um», acrescenta o nosso protagonista. Esta contagem fê-la com a ajuda de Odete, a funcionária da IPSS, que nos tempos livres se dedica ao museu. Odete é também peça fundamental na criação da biblioteca de etnografia, aberta a todos os curiosos por este saber cultural. «Em 2003 demos conta que o museu tinha muita força mas que havia uma coisa que faltava. Um apoio bibliográfico», afirma António Pires, explicando «que ali estão quase 3500 exemplares dedicados ao folclore aos quais se juntam recortes de jornais com todas as notícias publicadas que tenham relação com esta ciência do uso popular.

«Sabeis o que são botões de unha?», pergunta, já antevendo uma resposta negativa. «São botões feitos a partir dos cascos dos cavalos», explica. Neste ponto recorre à pequena biblioteca para mostrar um documento do século XVIII, onde consta a criação, em 1776, pelo Marquês de Pombal, da primeira manufactura de botões de unha no Porto, com um exclusivo de dez anos. Mas há mais curiosidades. Surge nova pergunta, numa voz firme e bem projectada, sentindo-se em todos os recantos do museu. «E botões de janina, sabeis o que são? São botões feitos de marfim vegetal. Sim ouvis bem. O marfim vegetal é extraído de uma planta que se cultiva na América do Sul».

Viagem a outro quotidiano
No museu faz uma incursão pelo quotidiano de antigamente. Num dos corredores, o barbeiro, que era também dentista e, quando era necessário, «consertava pernas partidas». Do outro lado, como se de uma rua se tratasse, a farmácia, com fracos utilizados nas mezinhas medicinais tão em voga até ao início do século XX. Ao fundo, a casa de habitação. Comecemos pelo quarto, onde, debaixo da cama de madeira se guarda o penico. «Um presente de casamento muito bom na altura», diz o nosso guia pelas tradições portuguesas ao mesmo tempo que mostra o fundo do penico branco com desenhos em azul, semelhante a um azulejo. No fundo, está pintado um olho. A sala enche-se de risos divertidos. Não muito longe, o berço de madeira, de pequenas dimensões como pede o ser que ali terá dormido. A cama é suportada por dois pés de madeira, que terminam com uma trave arredondada. O feitio como se fosse metade de uma roda, permite o baloiçar do berço.

Já na cozinha salta à vista uma travessa gasta. O nosso interlocutor conta que «antigamente a família comia toda do mesmo prato. E usava-se até não poder mais, por isso a travessa perdeu o desenho que a decorava». A mesa da sala está composta, como de uma sala se tratasse. A curiosidade recai sobre os copos de vidro, ainda hoje usados para servir bebidas alcoólicas como licor. Contudo os desenhos destes copos distanciam-nos dos que hoje utilizamos. A imagem de uma senhora indicava a medida que devia beber. A imagem seguinte, a dos senhores. «Para os porcos aqui mais por cima e para aqueles que querem voar enche-se até à última imagem a de um porco grande», explica António Pires. Avançamos para a zona dedicada ao ciclo do linho e ao expositor com uma vasta colecção de caixas de fósforos. Ao lado, chapéus. «Temos aqui 12 chapéus expostos, mas a nossa colecção ronda os 165 mil».

No tempo em que não se usava cuecas
Chegamos aos trajes. António Pires veste umas luvas brancas de tecido. Todo o cuidado é pouco para lidar contra o desgaste provocado pelo tempo e as traças. «São o nosso pior inimigo», comenta enquanto arrasta a larga gaveta de uma cómoda, também ela de outra época. Retira uma túnica branca que até poderia ser contemporânea. Desperta a atenção o círculo perfeito, mais ou menos a meio da peça. «Esta era a peça usada no acto sexual porque o homem não deveria mostrar o corpo à mulher», conta António Pires, divertindo-se com o espanto dos visitantes. Mas há mais: «Há uma peça de vestuário que até ao início do século XX não era usada. Sabeis o que é?». É neste jogo de adivinhas que António Pires conquista a atenção e garante que a mensagem fique guardada para memória futura. «As cuecas. Antigamente as mulheres não usavam cuecas», diz, explicando que «esta peça começou a ser usada pelas prostitutas parisienses. A Igreja Católica, zelando pelos bons costumes, considerou as cuecas peça pecaminosa, não devendo ser usada pelas senhoras de bem». O professor continua a dissertar sobre os costumes. «Para fazer as necessidades as senhoras precisavam de alguns conhecimentos de geometria», afirma. «Os dois pés lado a lado fazem dois vértices. Depois a mão direita puxa o vestido para a frente e esquerda para trás. Após fazer o chichi, por uma abertura na saia, chamada maneira ou bichaneira, metiam a mão e limpavam-se ao saiote».

Todas estas histórias e artefactos sobrevivem movidas pelo esforço de António Pires e da funcionária da Instituição Particular de Solidariedade Social, Odete. Apoios? Tiveram um, aquando da abertura do museu, resultado de uma candidatura a financiamentos comunitários. «O Estado diz que estas coisas não têm nada a ver consigo. Tem-nos valido a Câmara Municipal de Viseu, que sempre vai dando um poucochinho de dinheiro. É pouco, mas aprendemos a viver como reis», termina o inspector.


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