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Póvoa Dão - Renascer para o turismo de aldeia

Longe vão os tempos em que as gentes da beira povoavam de risos, lágrimas, nascimentos, sofrimentos, festas, em suma com vidas, o mundo rural. A geografia da desertificação, cartografa-se com muitas partidas, com campos vazios, que perderam milho e linho e ganharam pinhal. Ganharam também a vinha, cobrindo encostas, serpenteando pinhais. O cenário é bucólico, propicio a divagações campestres e a encontros com modos de vida ancestrais. A aldeia da Póvoa Dão está nesta rota de evasão. O núcleo, outrora uma quinta, após um período ao abandono, renasce para o turismo de aldeia.

Sara Pelicano | sexta-feira, 24 de Julho de 2009

Ouve-se um burburinho nas ruas empedradas. Dentro das pequenas casas de granito percebe-se vida. Os raios de sol madrugadores atravessam o bosque. Dos campos de linho e milho expira a noite. Aguardam horas de trabalho árduo. A vinha ainda escasseia. A proximidade do rio Dão não deixava produzir vinhos de boa qualidade. Manhã cedo, farnel na mão, os habitantes de Póvoa Dão partem para o trabalho rural.

A aldeia não se esvazia. O carpinteiro coloca na rua parte dos utensílios de trabalho. Arranja um carro de bois. Pelo decorrer do dia é possível que ainda conserte postigos e portas. Rua acima, rua abaixo, encontram-se outros ofícios. O pedreiro que recorre ao ferro de assento para transportar pedras. É preciso fazer um muro se suporte de terras. Numa das casas, com rés-do-chão alto, o suficiente para guardar utensílios agrícolas e animais, e no primeiro andar a habitação, encontramos o barbeiro. Faz a barba, mas se for necessário arranjam-se dentes e consertam-se ossos partidos.

O final do dia aproxima-se. No ar começa a sentir-se o cheiro do lume que aquece no forno comunitário. A hora é de descanso, eventualmente, de convívio.

Acertemos o calendário. O presente torna-se pretérito. O que se traçou veio de outros tempos. Os que agora passam por Póvoa Dão, no distrito de Viseu, encontram outra realidade e trazem outros motivos: procuram dias de descanso e de lazer.

De outros tempos sobrevivem ainda o Sr. Soares e a D. Mercinda, ambos na casa dos 80 anos. Os campos de milho e linho já não têm as proporções de antes e a idade não permite grandes esforços. Contudo são os dois anciãos que alimentam a horta biológica da agora aldeia turística. «Todos os produtos produzidos na horta biológica são consumidos no nosso restaurante», esclarece o gerente da Póvoa Dão, José Alberto Rodrigues.

A estrada romana que atravessa a aldeia é uma marca da ancestralidade de um lugar, que o êxodo rural do início do século passado deixou ao abandono. No ano de 1997 o Grupo Catarino, um conjunto de empresas familiares, uma delas ligada à construção civil, investiu cinco milhões de euros na recuperação das casas. «Tivemos o cuidado de manter a traça antiga das estruturas; acrescentamos apenas, no interior, algumas comodidades, como seja ar condicionado», comenta o responsável.

O investimento é na totalidade privado. Das 24 casas já recuperadas, 16 foram vendidas a particulares. «Foi um investimento muito grande. Tivemos de vender algumas casas», explica o gerente. Neste momento há mais seis casas em fase final de requalificação, e ficam outras 12 para outra altura. «Temos essencialmente um mercado português, mas vamos começar a apostar no mercado estrangeiro. O mercado português é muito sazonal», diz José Alberto Rodrigues.

A envolvente natural por si só é motivo de visita à aldeia turística. A gestão de Póvoa Dão alia às vinhas, que despontam agora por toda a região, a cozinha local. «Quando tivermos mais casas para ocupar, vamos começar a investir na animação». Por enquanto, reina o silêncio e tranquilidade de uma terra afastada do rebuliço citadino. A sede de distrito, Viseu, dista 14 quilómetros de distância.


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