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Bordados de Tibaldinho - Preciosismos nascidos em algodão

Há muito que o nome da aldeia beirã de Tibaldinho, distrito de Viseu, se confunde com os bordados que nascem de mãos que unem sabedoria a habilidade. Em tempos idos, os bordados apenas saiam das gavetas em dias de festa. Eram, então, expostos pela casa. Hoje, estas peças de labor genial saltam da intimidade dos lares, mostram-se em feiras, fazem-se ao vivo. Numa destas ocasiões cruzámo-nos com Júlia Lopes. A natural de Tibaldinho não desiste de fixar a vista no pequeno e preciso ponto desta arte portuguesa.

Sara Pelicano, fotos - Projecto Aldeia de Tibaldinho | segunda-feira, 3 de Agosto de 2009

Tibaldinho é terra pequena, a meio caminho entre Viseu e Mangualde, pouco mais de 400 habitantes. Os seus bordados, contudo, chegam longe em fama e encerram histórias que Júlia Lopes, perto dos 70 anos, nos vai desfilar. Encontramos a habitante de Tibaldinho na I Feira de Tradições de Viseu. Faz afincadamente os famosos bordados, uma ocupação que preenche os dias de cerca de 25 por cento da população feminina activa da sua terra. «Faço isto há muitos anos. Aprendi com a minha avó», começa a dizer a bordadeira.

De olhar fixo no pequeno ponto que remata os buracos feitos no algodão, Júlia comenta: «Já fui a muitas feiras mostrar os bordados da minha terra. Agora custa mais, com a idade a avançar». Apesar das canseiras Júlia Lopes está disposta a revelar o que sabe sobre a arte que segura entre as suas mãos. «Fazem-se no tecido de algodão branco, substituto do antigo pano de linho tecido em teares manuais, os buracos. Com um lápis pinta-se o desenho. Depois as extremidades dos buracos são preenchidas com linha de algodão branco e baço para o algodão não começar a desfiar», descreve, tirando, uma e outra vez, os olhos do bordado. A experiência permite-lhe estas ousadias sem perder o rumo ao trabalho.

Os bordados são utilizados para ornamentar lençóis, toalhas, aventais. O trabalho destinado às mulheres tinha um valor precioso. Era guardado em casa e apenas em ocasiões especiais, os de fora, poderiam ver algum do património de bordados presente em cada habitação. Nas ocasiões festivas colocavam-se, então, à vista dos olhares curiosos o enleio, a série de ilhós, borbotos, cordão em espiral, estrelas, corações, os motivos presentes neste artesanato de Tibaldinho. Os desenhos ancestrais continuam a criar motivos nos dias de hoje. Júlia Lopes esclarece que «não se pode fugir ao desenho. Não se pode inventar».

«A minha avó conta que, quando era miúda, ia com as amigas guardar as ovelhas e, nos tempos livres, lá ia furando o algodão e fazendo bordados», relata a nossa protagonista. Hoje já poucos são os que se dedicam a esta tradição. Nos mais velhos a vista prega partidas e não permite ver o pequeno ponto que se tece no algodão. Os mais novos «preferem os cursos de tapetes de Arraiolos que também há na minha terra», afirma Júlia Lopes, logo justificando: «sabe, é que o ponto de Arraiolos é mais simples». Júlia faz aqui uma pausa, levanta a cabeça, presa no algodão branco, e acrescenta: «mas os tapetes de Arraiolos, são de Arraiolos, não são nossos».

Numa aldeia iminentemente rural, os Bordados Tibaldinho terão, ao que se crê, nascido no século XIX derivando dos bordados ingleses. O alívio para a árdua vida agrícola fazia-se no preciosismo e rigor do bordado.

Comentários Comentários (1)
terça-feira, 16 de Fevereiro de 2010 | Ana Romano
Felicito a vossa reportagem, a tentativa de dar a conhecer o artesanato português, só é pena trocarem o nome da bordadeira durante a entrevista
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