Ando triste, apoquentado,
pois tudo já aborreci.
Só vejo a felicidade
quando olho para ti.
A quadra prende-se numa flor de papel exposta na Feira das Tradições de Viseu. Cravos e camélias enchem a banca de Lucília Rodrigues. Deslocou-se à capital de distrito para mostrar a arte da sua aldeia, Fragosela. As Flores dos Namorados, também conhecidas como Flores de Papel de Fragosela, são uma prenda com mais de 300 anos. As flores vendiam-se nas festas religiosas. Os rapazes compravam uma flor e colocavam no peito da rapariga. Ela, por seu turno, comprava e colocava no chapéu dele. Em cada flor, uma quadra. Na aldeia contam-se aos milhares os versos inspirados.
Trocavam-se então juras de amor. A troca das flores de papel servia, muitas vezes, para oficializar o romance. Lucília Rodrigues deixa o papel de seda, os arames e tesouras com que faz as flores e comenta: «aprendi com a minha sogra. Na aldeia praticamente só eu é que faço».
A arte do papel terá chegado ao nosso país no final do século XVIII, início do XIX. Os conventos parecem ter sido a origem das frágeis pétalas. Fazer flores de papel poderá ter sido um «matar as horas» para as freiras. Segundo um levantamento de informação realizado pelo Centro de Estágio de Educação Visual da Escola Preparatória de Viseu, em 1982, esta arte de moldar o papel «teve semp
re duas facetas, uma erudita e outra popular». A que parece ter perdurado mais tempo é esta última. A nossa interlocutora, com pouco mais de 30 anos, comenta que as flores continuam a ter muita saída em «festas dos santos».
Paciência é um dos requisitos para dar forma ao papel de seda, utilizado nas flores de Fragosela. Lucília acredita que a falta de paciência é um dos motivos que afasta os jovens desta arte ancestral. «Para se fazer isto temos de ter muita paciência e gosto. Quem tiver gosto aprende”, comenta, enquanto dobra meticulosamente um pedaço de papel. Com a tesoura dá cortes que parecem aleatórios. Desdobra. Do papel sem forma nasce um cravo. Coloca de parte, junto aos que durante toda a manhã foi produzindo.
As vendas são poucas. Vende-se, uma flor aqui, outra ali. Normalmente, acumulam-se à espera de encomendas para algumas festas. «Além das festividades dos santos, há a câmara que faz grandes encomendas», conclui Lucília, voltando novamente atenção para a cola, tesouras e papéis.