O vento canta lá fora, mas não está a favor das velas. «Vê aquela seta lá em cima, junto ao telhado?», pergunta Manuel Borrês, o moleiro. «Quando a seta estiver alinhada com o mastro, significa que o vento sopra a favor». Olhamos para o tecto na esperança que a seta aponte para o mastro e possamos ver a pedra a moer. Não temos sorte.

Mas, o Sr. Manuel não se dá por satisfeito por não mostrar o seu moinho a trabalhar. Arregaça as mangas da camisa e as mãos calejadas do trabalho árduo iniciado aos nove anos começam a puxar a mó. O milho vai caindo lentamente para o interior da grande pedra e, dos lados, começa a surgir farinha. «Vê. É assim», afirma o «Manuel Moleiro», como é conhecido em Santiago do Cacém.
Aos nove anos, Manuel deixou a escola e foi trabalhar para o Moinho da Quintinha, nas Cumeadas, concelho de Santiago do Cacém. Hoje, com pouco mais de 80 anos, continua a moer farinha. Agora é mais para turista ver e para ensinar nas escolas como se fazia farinha noutros tempos. «Gostei muito de fazer uma exposição. O ciclo do pão», conta quando lhe perguntamos por momentos felizes passados a ouvir soprar o vento.
Quando os campos se enchiam de mulheres e homens com foices, o Moinho da Quintinha trabalhava a vento solto. «Antigamente éramos nós que limpávamos tudo, foi isso que vim fazer logo em garoto», diz o Sr. Manuel. O trigo chegava, tinha de ser limpo para depois ser moído. O mesmo acontecia com o milho. O moleiro ficava com uma percentagem da produção. Assim recebia pelo seu trabalho.
Na década de 1960, a paisagem rural do litoral alentejano acompanhou a evolução dos tempos e as máquinas ocuparam os terrenos agrícolas. O tempo urge e as pessoas procuram a farinha já preparada no supermercado. «Agora já ninguém vem cá deixar trigo», conta Manuel e continua: «Sabe isto ainda dá trabalho. Esta farinha tem ainda de ser peneirada e fermentada e as pessoas já não querem esses trabalhos».
A vida de Manuel moleiro levou-o até Lisboa onde trabalhou numa fábrica de massas. Em 1994 regressa ao Moinho da Quintinha para continuar a moer o milho todos os dias.
O ritual é sempre o mesmo. Manuel fá-lo com um brilho nos olhos revelando a paixão pelo moinho. «Abrem-se as velas conforme o vento. O mastro faz rodar o carreto. Aumenta a velocidade do vento aumenta a rotação, logo, cai mais farinha. O vento faz andar a mó. A aliviadora serve para apertar ou afrouxar a mó e refinar mais ou menos a farinha», explica Manuel ao Sr. Fonseca, homem na casa dos 50 anos que aprende o ofício de moleiro para continuar a manter vivo o Moinho da Quintinha. A estrutura, como nos é explicado, é feita em alvenaria com uma torre tronco-cónico e capelo giratório accionado por um sistema de sarilho.
Neste dia, o vento não chegou a soprar a favor das velas. A visita ao moinho pode ter estes percalços e não é possível ver a mó a girar impelida pela força da natureza. Mas traz-se o cheiro do trigo molhado pronto a moer, a imagem da imponente mó de pedra a ocupar o espaço redondo, deixando pouca área para a movimentação do homem.