Gira sobre o chão depois de se desembaraçar da corda. O gesto simples que o animou entreteve gerações. Trata-se do jogo do pião. Para Hernando dos Reis este objecto de madeira pontiagudo

continua a ser um passatempo, mesmo tendo já somados 80 anos de vida. A brincadeira deixa-a para os mais novos. O entretém de Hernando é junto ao torno a manipular a madeira para conseguir a forma afunilada do brinquedo tradicional. No final coloca-se na parte mais estreita do «funil» uma ponta, geralmente de metal, para o pião girar sobre si mesmo depois de uma corda presa à sua estrutura ser solta.
O pião pode ser jogado por um ou mais intervenientes. Um dos objectivos passa, por exemplo, no engenho de colocar mais do que um pião a girar dentro de um círculo desenhado no chão e fazer com que o pião oponente derrube os restantes, atirando-os para fora dos limites do círculo, sem nunca cair.
«Este torno onde trabalho agora pertence à Câmara Municipal de Mafra. O município comprou-o para que se possa utilizar assim em feiras», conta Hernando dos Reis, encetando conversa após um período de concentração. «Mas o meu torno pertencia ao meu bisavô e data de 1850», acrescenta.
Passados 42 anos numa loja de chás e cafés no Rossio, em Lisboa, Hernando dos Reis decidiu, na reforma, recuperar um saber que tinha visto no avô e no pai. «Comecei neste entretém há meia dúzia de anos, tinha já 71 anos». Depois do pião feito e, com ele ainda colocado no torno, Hernando dá-lhe um toque mais pessoal. Com um pedaço de madeira mais escura fricciona sobre a madeira do pião e desenha-lhe dois riscos à volta.
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«E já está», diz com ar satisfeito, sobre o olhar de alguns curiosos que abrandam a marcha para observar Hernando a fazer piões durante a Feira Internacional de Artesanato, que decorre anualmente, em Lisboa, no início de Julho.
A madeira utilizada para fazer o brinquedo é o cedro que Hernando retira do seu quintal. «No meu pedacinho de terra, plantei há anos pinheiros e cedros. Agora aproveito a madeira para fazer os piões. O desenho é feito com uma madeira qualquer mais escura», diz, enquanto puxa uma cadeira e se senta.
Os pés estão inchados e a culpa, diz em tom de segredo não vá alguém ofender-se, é do ar condicionado. «Eu lá na minha oficina, no Sobral da Amieira, uma freguesia do concelho de Mafra, passo horas de pé e isto não me acontece», conclui.
Faz-se um momento de silêncio. O olhar de Hernando parece preso no nada. Perde-se em memórias. «Sabe, eu costumo ir ao ginásio», diz, imediatamente colocando um sorriso no rosto magro, de semblante triste suportado por rugas da idade. «Acho piada quando digo isto. Vou contar qual o meu desporto. Todas as manhãs de enxada na mão lá vou eu para o meu pedacinho de terra tirar ervas, mexer a terra e plantar mais uns legumes», afirma acrescentando: «depois quando estou cansado, puxo uma cadeira. Sento-me. Passado pouco tempo, mesmo sentado lá vou mexendo a terra e desviando a cadeira. É que assim a minha mulher também chateia menos», remata com mais um sorriso no rosto.
Hernando dos Reis abandona a cadeira. Pega num pião. Enrola a corda à volta do «funil» de madeira e diz: «vou mostrar-lhe como se lança». Num gesto rápido solta a corda e o pião cai no chão, onde fica a girar sobre a ponta afiada de metal. E neste girar do pião, Hernando volta a abstrair-se do mundo, ficando preso a memórias de uma vida já longa.