O tempo lê-se nas mãos de José Nobre como uma geografia feita de sulcos profundos, cordões de artérias, dedos grossos, curtos, encavalitados. Os gestos, enérgicos, desmentem, contudo, estas mãos só de aparência exaustas. Aos 71 anos, o cardador da aldeia de Furnazinhas, na freguesia de Odeleite, Algarve, desembaraça histórias do ofício, com a mesma desenvoltura com que, agarrando nas cardas, desempecilha os nós da lã.
Com José Nobre ficamos a perceber que a qualidade da fibra depende da lã proceder de um animal vivo ou morto. Na tosquia, se a ovelha estiver viva, a lã será mais macia ao toque e resistente para fiar.
Já depois da tosquia a lã é lavada, seca e aberta manualmente para retirar a sujidade.
Posteriormente, o cardador utiliza duas escovas para cardar ou seja para «pentear a lã», um processo que exige paciência, a extracção dos nós das fibras.
Depois de cardada a fibra da lã está pronta para ser transformada em fio. Vai passar pelo fuso e roca para ser retorcida e alongada. É com estes, entre muitos outros gestos, que se faz o ofício de cardador na paisagem algarvia, um processo manual que colhe poucos adeptos entre os jovens da região.
As palavras de José Nobre para ouvir na primeira pessoa, num dia de festa na aldeia. Uma comitiva de visitantes trouxe ao largo uma animação inusual.
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