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A dança da renda de bilros

O tilintar dos bilros marca o ritmo das mãos de Maria dos Mártires. Os dias da reforma são dedicados à aprendizagem da renda de bilros. No Azinhal, Algarve, poucos são os que mantém viva a tradição, fonte de rendimentos de outros tempos.

Sara Pelicano | quarta-feira, 1 de Abril de 2009

Uma almofada de palha de forma cilíndrica, suportada numa canastra de verga, apela à concentração de Maria dos Mártires, que faz dançar os bilros por entre os dedos, enquanto as linhas pintam o desenho, que a artesã segue com olhar de principiante. «Em pequena não aprendi a fazer isto. Agora, depois de reformada é que decidi aprender», conta, ralhando consigo mesma por ter trocado os bilros e o ponto ter saído torto. A almofada é de palha e suporta o desenho «que é antigo, nós tiramos fotocópias e usamos», esclarece Maria do Mártires acrescentando logo: «a almofada tem de ser rija para podermos colocar os alfinetes». Os alfinetes servem para marcar o final de cada ponto dado, bem como para segurar o desenho à almofada.

A pequena localidade do Azinhal, no concelho de Castro Marim, viveu outrora das rendilheiras de bilros. A terra nestas paragens era pouco fértil e difícil de trabalhar, pelo que o bater dos bilros ouvia-se por toda a parte, produzindo habilidosos trabalhos que sustentavam a economia do lar. «Agora já não vendemos muito. Isto dá muito trabalho e as pessoas não ligam», confessa a nossa protagonista. Uma peça pequena pode levar três dias a fazer. «A trança, o ponto por onde se começa, faz-se como quatro bilros», diz Maria dos Mártires. «Eu ainda faço esse porque ainda estou a aprender, mas depois juntam-se mais bilros. Usam-se até cerca de 24», acrescenta, agora mais contente porque desfez o erro de há pouco.

Lenda do Azinhal
A renda de bilros terá nascido nestas terras algarvias no século XVII, fruto de uma tragédia amorosa. Por estas paragens vivia uma princesa, que conquistava muitos corações, cruzou-se com um jovem cavaleiro que preservava o ideal da liberdade, contrariando qualquer submissão por amor. Contudo, apaixonou-se pela bela princesa, que exigiu a total abnegação da liberdade para viverem aquela paixão. Perante esta exigência, o cavaleiro suicidou-se e nesse local nasceu o azinhal. Aqui também se ouve o pranto de uma mulher que, num acto de desespero, tenta entrelaçar os fios de sangue do seu amado. Nasce a renda de bilros.

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