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Mestre Desidério Rocha - O ferreiro de Junqueira

Na oficina de mestre Desidério Rocha, ferreiro na Junqueira, Castro Marim, recriam-se gestos intemporais. O fogo, o ar, a água, conjuram sobre o ferro. 66 anos de labor numa conversa repleta de memórias e gestos no limiar da extinção.

Jorge Andrade | domingo, 25 de Julho de 2010

A besta resfolega ritmicamente, numa aspiração profunda. O fole insufla de vida o fogo onde amacia a cabeça de ferro rubro da enxada. Esse mesmo ferro, dentro de momentos, submete-se ao poder maior. O martelo malha, uma e outra vez para, depois, a água fria tornar em tempestade de vapor o metal rubro. A cena é esta, o actor, o todo-poderoso ferreiro, recria gestos que brotam de todos os tempos. Molda o ferro; o mesmo ferro que o fez.

Punhos, dedos, braços ombros hipnotizam pelo poder. O tronco que se verga à idade mantém-se soberano dentro da oficina. Uma força imensa desprende-se de cada gesto. Insuflar de ar o fole, revolver as brasas incandescentes na fornalha, mergulhar nelas a obra, malha-la sobre a bigorna.

A oficina de Mestre Desidério António Rocha, na Junqueira, localidade do concelho de Castro Marim, guarda uma aura mitológica; de perpetuidade. Uma arte antiga que é história mas que também se tornou mito. Desidério Rocha desenrola uma vida com 80 anos. Destes, 66 anos como ferreiro. Um Deus Vulcano que nos poucos metros quadrados da sua oficina, à beira da estrada, conjura elementos primordiais. O mestre torna-se divindade do fogo e do metal. Da sua forja nunca saiu Pandora, a primeira fêmea mortal, mas saíram durante décadas os instrumentos que serviram uma lavoura agora quase desaparecida deste Algarve rural.

Estamos perante o mestre. Damos-lhe a palavra, enquanto nos demonstra o ofício: “hoje já me reformei, mas não paro. É um trabalho duro, o corpo já me dói”. Como para o provar, Desidério ergue uma mão. Grossa, um cepo de pulso, polegares desmesurados, dedos encavalitados. Depois, como para se vingar da condição anciã, o ferreiro parte para memórias pueris: “nasci aqui na Junqueira. O primeiro ordenado foi de 2,5 cêntimos por semana, tinha eu 14 anos”. Desidério Rocha remonta à aprendizagem, quando na oficina de Manuel Correia Severo, em Castro Marim, aprendia os segredos da forja. O ofício, havia de o apurar em Vila Real de Santo António onde, como conta, “ganhei tarimba para aprender a trabalhar por conta própria”.

O fogo na fornalha afasta o mestre das memórias. Desidério volta-se para a bocarra incandescente. As mãos submetem à tenaz a cabeça ardente da enxada. Esta voa rápido da forja para a bigorna. O mestre pede espaço à assistência. Cospe numa mão, alcança o martelo. A bigorna vai-se tornar o centro de todas as atenções. O ferro incandescente cai sobre o corpo maciço, frio. Sobe, então, o martelo, atingindo por momentos o zénite, para se precipitar, brutal, sobre o metal escaldante. Os sucessivos embates extraem à matéria amolecida pelo calor a condição rubra. A cabeça da enxada volta para a forja. Mestre Desidério retorna ao cabo que anima o fole de forja, uma enorme sanfona de pele, entre duas peças de madeira. Como duas palmas de mãos gigantes, aproximam-se, comprimem a sanfona, expulsam o ar que, engenhosamente, entra na forja. Desidério retoma o fio da sua vida:
“Em Vila Real de Santo António ganhei tarimba e quis-me pôr por conta própria. Aos 20 anos comprei as ferramentas ao patrão e abri uma oficina com o meu pai”. O pai de Desidério Rocha era carpinteiro, no tempo em que as charruas e, pasme-se, os carros recorriam às madeiras. Quando o pai do mestre morre, Desidério Rocha continua, mas agora somente como ferreiro.

Durante décadas, do forno, da bigorna e da força de Desidério saíram sacholas, machadas, enxadas, portões, utensílios de cozinha. Instrumentos para um Algarve diferente; com as aldeias povoadas, com campos produtivos. Um mundo, antes da mecanização, da indústria, da sociedade urbana; um mundo que Desidério Rocha viu esmorecer: “hoje não há ninguém na agricultura. Sem gente para se interessar pela terra, também não há trabalho para o ferreiro. Não são precisas ferramentas e quando são preferem as modernas”. Ao mestre restam uns arranjos de ferramentas agrícolas e uma ou outra encomenda para feiras. Os Dias Medievais de Castro Marim costumam ser um bom cliente. Conta Desidério Rocha: “ponho-me lá [na feira medieval] a mostrar como se trabalha o ferro. Vou explicando a quem pergunta”. Enquanto fala o mestre aponta um dedo vago para o fundo da oficina. Encostadas a uma das paredes descansam, entre calcadores, talhadeiras, ponteiros, tenazes, algumas espadas em aço. “Essas foram trabalhadas na feira. Ainda vão tendo saída”, explica Desidério.

Salta a pergunta entre a assistência. A inevitável questão perante a urgência de não deixar morrer o ofício: “Não há quem lhe siga a profissão?” Desidério lança uma mão muda. Já terá escutado a mesma pergunta vezes sem conta e antecede com algum desdém a inutilidade da resposta. “Tudo isto morreu”. Cala-se e malha mais alguns momentos no ferro que chispa, revoltado, começando a ganhar forma. Devolve o trabalho à fornalha, lança-se ao fole e confessa: “não me importava de ensinar o trabalho aos jovens. Mas onde é que eles andam?”.

Cai o pano. A hora urge uma retirada para outras voltas no concelho de Castro Marim. Desidério pede só mais um momento. Insiste, quer mostrar umas fotos. O tempo das partidas prementes, não é o mesmo tempo do ferreiro de Junqueira. Assentimos e, animado, o mestre retira de uma pasta quatro ou cinco momentos fixos pela chapa. O cenário é a Feira Medieval. O personagem é um Desidério, longe do século XXI, trajando um século pretérito, concentrado sobre a bigorna, a pose intemporal de quem podia, perfeitamente, habitar o século XIII.

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