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A história bélica de Portugal passa por Castro Marim

De visita ao concelho algarvio de Castro Marim o Café Portugal fez uma viagem no tempo em pleno centro histórico da vila. A vista panorâmica do Revelim de Santo António, a história do Forte de São Sebastião e as obras prometidas para o Castelo de Castro Marim são alguns dos aspectos focados neste périplo pelas fortificações que outrora defendiam a fronteira. Espanha, ali perto, espreita na outra margem do rio Guadiana.

Carla Santos | domingo, 12 de Abril de 2009

«Estamos no coração do centro histórico de Castro Marim no Forte de São Sebastião. Uma construção do século XVII, mandada erigir por D. João IV. A estrutura inscreveu-se na política de defesa da costa portuguesa». Assim começa a explicação de Vítor Madeira, técnico da Câmara Municipal de Castro Marim, enquanto nos dirigimos para as muralhas sobranceiras à vila, um emaranhado de casario alvo; um rebanho urbano ajoujado no litoral algarvio. A muralha da fortaleza, irregular, integra na sua constituição cinco baluartes. A porta principal está virada para norte na direcção do Castelo. A fachada exterior num tom pastel foi alvo de requalificação recente e reconstitui as muralhas originais. Segundo Vítor Madeira, antes dos três projectos de qualificação encetados, 90% das muralhas encontravam-se degradadas ou destruídas.
Depois de aberta a porta do monumento (de momento ainda está encerrado ao público), subindo os íngremes degraus no interior da fortaleza, somos confrontados, já no cimo da fortificação, com a vista sobre o Sapal.
Dentro de muralhas, o facto de as paredes estarem cobertas por algo semelhante a estuque levanta a questão do rigor da reconstrução. O adjunto camarário afiança que «embora antes da requalificação víssemos as pedras a nu, o facto é que em 1641 quando a fortaleza foi construída todas as pedras tinham reboco com cal».
O interior do forte ainda se encontra degradado. Há que descer as escadas com especial cuidado para sair. Vítor Madeira acrescenta, entretanto, que a fase seguinte do projecto e última «passa pela requalificação de interiores. Isto para que o forte se torne um símbolo de Castro Marim e aí se desenvolvam actividades culturais». 

Alegria traz vida nova ao Revelim
Numa elevação ao lado do Forte de São Sebastião, encontra-se a colina do Revelim de Santo António, o cerro da Rocha do Zambujal. O lugar albergou outrora um forte de pequenas dimensões. Dali a vista ultrapassa fronteiras e cai sobre Espanha e Atlântico.
Recuperado, o Revelim apresenta, agora, espaços verdes e um conjunto de valências. Os vestígios de fortificação desapareceram e dão lugar a um moinho, que segundo o Vítor Madeira «foi recuperado. Neste momento a peça que possibilita o funcionamento da estrutura foi retirada. No futuro, a ideia é voltar a fazer farinha e pão a partir do trigo». Ao lado do moinho encontra-se um edifício moderno em tons branco, azul e laranja, encimado por uma abóbada. Trata-se do Centro Interpretativo do Território, ainda encerrado. Vítor Madeira esclarece que «com recurso às novas tecnologias vamos possibilitar ao visitante um conhecimento sobre o território. O Centro será em breve inaugurado». O edifico tem a assinatura do arquitecto José Alegria que também projectou a biblioteca municipal. Na outra ponta da colina está a Ermida de Santo António. Uma construção barroca, neste momento vazia, a aguardar um projecto de recuperação. Ainda no Revelim o arquitecto deixou a sua marca no Jardim Andaluz na encosta da colina. As cores são as mesmas do Centro Interpretativo. Várias colunas sustentam traves de madeira, uma benesse de sombra nas horas de maior calor. E há ainda quatro imponentes torres que, segundo o técnico da autarquia, «quando o sistema de água estiver a funcionar, vão estar a jorrar para o Jardim Andaluz». Maio ou Junho são as datas apontadas para a inauguração de todo o Revelim. 

O Castelo dos «Dias Medievais»
De costas para o Revelim e em direcção ao Castelo de Castro Marim deparamo-nos com um cenário pouco condizente com um centro histórico. Há fios e antenas, há janelas e portas com caixilhos de alumínio. Face ao anacronismo nesta viagem a um outro tempo, confrontamos Vítor Madeira. Este explica que «nestas casas já estão a ser colocados os cabos de fibra óptica. Para acabarmos com as antenas de televisão na zona histórica». Na comemoração nacional do Dia dos Centros Históricos, a 18 de Março, foi anunciada a delimitação do centro histórico que, segundo o presidente da Câmara de Castro Marim, José Estevens «não deve limitar-se ao Castelo e ao Forte de São Sebastião e vamos ainda lançar um plano de salvaguarda para essa zona».
Já dentro do castelo podemos contemplar uma vista panorâmica sobre a reserva do Sapal de Castro Marim. O monumento é uma construção do século XIII, mandada erigir por D. Afonso III. Em 1319 D. Dinis confere a Castro Marim o título da Ordem Militar de Cristo.
Desde 1998 que, anualmente, decorrem dentro do Castelo os «Dias Medievais», evento organizado pela autarquia em parceria com o IPPAR. A iniciativa que atrai anualmente perto de cem mil visitantes, vai na sua décima segunda edição. Para além dos banquetes medievais e da animação de rua «recriamos aqui também mais de 40 profissões, desde o latoeiro, o ferrador, a tecelagem, do barro à produção do vinho. Podemos dizer que nessa altura é um dos maiores eventos culturais a sul do Tejo» garante o técnico da autarquia.
O projecto de requalificação do Castelo, no valor de 7 milhões de euros vai manter e consolidar algumas das estruturas existentes, uma acção que a estrutura bem precisa. Desaparece a ruína da casa do governador, que em termos históricos e segundo Vítor Madeira é muito posterior à construção do castelo. Está prevista a construção de um restaurante panorâmico. E no local do chamado de paiol, onde se guardavam as munições, será, futuramente, um núcleo museológico.

A viagem no núcleo histórico e bélico de Castro Marim termina então com a sensação de que ainda há muito trabalho a desenvolver nas três estruturas que fizeram do passado deste concelho um marco na defesa da fronteira portuguesa.

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