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Odeleite - Com arte entrança-se a cana para fazer um cesto

Em Odeleite, concelho de Castro Marim, entabulamos conversa com António Gonçalves. Da cana faz cestos. Fá-los tal como o pai fazia, recorrendo à matéria-prima abundante. Não falta o recurso, falta, isso sim, quem mantenha esta tradição.

Jorge Andrade | terça-feira, 14 de Abril de 2009

Em baixo, no vale pouco profundo, corre o fio de água. Ouve-se manso, entre arrufadas de brisa que sobem até à vila; casario branco a despique no cerro. A Ribeira de Odeleite vai fraca, contrastando com a barragem, a montante, inchada de água. Os céus de Março não se têm revelado cúmplices de cursos de água generosos por estas bandas algarvias. Nas margens da ribeira entrechocam braçadas espessas de canavial. “As canas estão ai todas, ao fundo da ladeira. Já ninguém as apanha. Antigamente limpava-se a ribeira.” O desabafo é de António Gonçalves, septuagenário, natural de Odeleite. Com destreza racha ao comprimento uma cana. “Querem que eu a rache? Querem? eu vou rachar. Apanho assim, os nós”. António Gonçalves faz figura perante a assistência: “até fecho os olhos”. E fá-lo. O fio do canivete, anos a percorrer o mesmo movimento, vai certinho. A cana “pelada” é corrida a todo o comprimento em dois lances de corte certeiros. A cana racha em quatro partes. Depois fazem-se as tirinhas. Mais tarde, entrançadas, darão forma a um cesto.
“Aprendi com o meu pai”, conta o artesão. “Era pequeno, saía da escola, ia para a várzea onde ele andava. Dava-me, de empreitada, seis tampas ou fundos para fazer. Despachava aquilo e, depois, queria era jogar à bola”, acrescenta António Gonçalves, com um piscar de olho cúmplice.
No tempo da meninice do senhor António, por mais generosa que a ribeira fosse a dar cana, “nunca chegava para o pessoal fazer os cestos. Em certas alturas as ruas enchiam-se de gente a fazer trabalho com cana. Até as senhoras faziam; de noite e tudo”, recorda.

A arte da cestaria, antiga por este Algarve, remonta no nosso território a um período antes da nacionalidade, por altura da cultura castreja. A cestaria em cana é tradição em Odeleite, assim como o são as resistentes peças em verga e em vime de Monchique.
A cana é usada ainda verde para poder ser vergada na forma pretendida. Uma obra que começa, sempre, pelo fundo, o “alvorado”. Dele partem as guias e os prumos, formando uma coroa de traves eriçadas. São as espinhas dorsais que compõem a estrutura. “As outras, que dançam à volta, são as ripas de parede”, explica António Gonçalves. Uma trama firme, tecida à mão, recordando a urdidura resultante da tecelagem, acaba por se fechar, compondo o cesto.

“Numa hora e pouco faz-se o cesto”, conta António Gonçalves lançando mão a um “acabadinho de fazer”. Leve, funcional. Um objecto que recua a um tempo antes dos plásticos, do cartão, do sintético; da “invenção” da ecologia, do biológico. Os objectos em cana, em vime, em verga, em juta, em palma, em saísso, nasciam das matérias-primas abundantes, de técnicas apuradas ao longo de gerações, numa resposta às necessidades do dia-a-dia fosse no âmbito doméstico, fosse no contexto dos ofícios.
O senhor António recorda esses tempos: “Antigamente fazia muita canastra em vime e em verga; fazia canastrinhas para transportar o peixe do barco para a lota e para o mercado. Fazia tarrafas para pescar o peixe. As laranjas iam para o estrangeiro em cestos de 30 quilos. Para as fábricas iam as canastras grandes para colocar as conservas. Havia uns cabazes para o comprido para levar os polvos. Hoje os polvos chegam estragados ao estrangeiro dentro dos plásticos. Também fabricávamos uns cestos para as amêndoas, para o pão. Outros, pequeninos, para as senhoras meterem os artigos da costura. Eu ainda sei fazer isso tudo”.
De facto sabe, mas como confessa logo de seguida: “hoje já me custa, estou muito estragado. Vim para aqui mostrar como se faz porque o Presidente da Junta me pediu”. A conversa desvia de rumo e cai nos “sete mares”. António Gonçalves andou embarcado. Conheceu mundo, muito para lá da sua vila, aninhada no concelho de Castro Marim. Serviu numa fragata portuguesa. Voltou, para encontrar uma terra diferente. Uma terra onde, como nos diz, “há poucos jovens e os que aparecem não querem saber destas coisas”. Remata, com ênfase: “não querem saber, não senhor”.

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