Cai a noite sobre o Vale das Zorras, no concelho de Castro Marim. Uma ilha de luz, sob o candeeiro frente à casa, junta Jesuína da Conceição e Deolinda Madeira. Mãe e filha aguardam-nos. Sobre o lajeado montou-se a mostra. Cestos, abanicos, chapéus, esteiras, todos objectos em palma, na sua maioria utilitários, saíram de muitas noites de labor de Deolinda Madeira. A arte aprendeu-a com Jesuína da Conceição, 80 anos, queixosos de vista e costas. A anciã ajeita-se ao lado da filha à soleira da porta, alisa a franja do casaco, a «noite está fresca» e aponta um dedo titubeante aos artefactos.
É Deolinda Madeira quem fala: «Comecei esta arte com oito ou nove anos. Ia fazendo aos bocadinhos à noite. Fazia à empreita e a minha mãe cosia». Empreita? O nome sugere-nos outras referências. «Fazer de empreitada, à tarefa?» - «Isso mesmo» responde-nos Deolinda Madeira. Confirma-nos, por seu turno, a literatura: «A Empreita ficou com este nome por ser um trabalho com preço ajustado à empreitada (normalmente era efectuado por mulheres), medido em metros e variando conforme fosse de palma grossa ou fina, de uma ou de duas voltas» [
Modos de Fazer, Guia do Artesanato Algarvio, Conceição Branco e Jorge Simão]. A matéria-prima, a palma, resulta das folhas de uma palmeira espontânea no Algarve e plantada na Andaluzia, Espanha, pelo menos desde o início do século XX. A arte surgiu inicialmente pela necessidade de embalar produtos locais. O figo, a amêndoa, a alfarroba seguiam para outras paragens menos meridionais preservados em alcofas de palma.
Na base do trabalho de empreita está a palma entrançada. Deolinda Madeira, lançando mão a umas tiras finas trata de nos explicar: «Isto sai de uma palmeira. Escolhemos a palma e depois secamos ao ar. Quando é muito larga ripa-se, para fazer tiras mais fininhas. Depois, molha-se para ser mais fácil trabalhar». Tarefa que é sinónimo de muita paciência. A base do trabalho da empreita de palma é a trança, executada com o entretecer das tiras. Deolinda Madeira exemplifica e duas tiras iniciam um caminho repleto de reviros entre dedos. Breve começa a surgir uma trança. A agilidade não significa um trabalho menos moroso. «Um cesto não se completa num dia», diz-nos Deolinda Madeira. Mesmo as mulheres mais experientes não fazem mais de um metro e meio de trança numa noite. Um chapéu não leva menos de seis metros de trança de empreita fina. Depois, é necessário cortar os bicos que vão ficando das emendas. Em seguida corre-se o búzio (uma concha grande) tarefa que também se

chama «engomar a trança» para dar brilho e enformar a peça. Por fim cose-se com fio de palma molhada.
Olhando para o trabalho que repousa aos pés de Deolinda Madeira reparamos que a matéria-prima não é toda igual. Há palma mais branca, há uma outra mais escura; outra ainda ganha leves tons rosados, verde, azul, debruando o contorno de um cesto, construindo vórtices em abanicos.
A palma mais grosseira serve para vassouras e pincéis. A de melhor qualidade vai a um banho de enxofre para clarear e ai permanece pelo menos 30 horas. O tingimento é facultativo, usam-se anilinas a quente com mais um banho em água salgada para fixar as cores.
Deolinda Madeira prefere a palma branca: «compro-a em Loulé, faz um trabalho mais bonito». Uma tarefa feita aos poucos, no «Inverno, nas noites grandes. No Verão há alfarroba e figo para apanhar. Assim, em Julho tenho os trabalhos prontos para a feira de artesanato em Castro Marim».
Valem a Deolinda Madeira as mostras de artesanato. Hoje os chapéus, as esteiras, as ceiras, os açafates, a cestaria, as vassouras em palma compõem um quotidiano pretérito, pouco mais sobrando a estes objectos do que a expressão «típico». Deolinda Madeira lamenta: «os estrangeiros é que procuram mais. Fazemos isto porque a câmara de Castro Marim nos vai pedindo para mostrar nas feiras e sempre é uma ajuda aos rendimentos. São trabalhos que ainda têm muita utilidade». Um uso que Deolinda Madeira demonstra não ser em vão. «Ainda agora acabei um tapete em empreita com quase dois metros. Vejam os senhores, está ali debaixo da cama».