Jorge Caetano Amado e o irmão Antonino Amado gerem a «Beira Velas», o pai Armando Amado que noutros tempos comandava a oficina, também vai ajudando. A história desta fábrica artesanal de velas na localidade de Cogula começa duas gerações atrás. Foi o avô de Jorge Amado quem iniciou o negócio familiar. Na altura, o processo de fazer as velas era bem diferente, explica o cerieiro: «antigamente a vela passava pelo processo de mergulho – o algodão era pendurado e através de sucessivos mergulhos ia engrossando. Como a cera escorria, a extremidade de baixo da vela ficava mais grossa que a parte de cima. Portanto, a meio do processo, havia necessidade de retirar a vela, virá-la, tornar a pendurá-la e depois dar meios banhos na vela para ela ficar da mesma grossura». Com este sistema a vela saía calibrada com a mesma espessura, tanto no início como no fim. Um processo moroso, carregado de paciência e saber.

Hoje, num mundo em que das mãos se passou para o mecânico, quatro máquinas realizam quase todo o trabalho na pequena linha de fabrico. Facto que não invalida que na «Beira Velas» se respire passado. O cenário ajuda. As velas, empilhadas, em caixas de cartão, prontas para expedição, «vestem» um ar rústico, sólido, um tom ceroso carregado de amarelo.
A cera de abelhas já não é usada como matéria-prima na feitura das velas. O proprietário da «Beira Velas» conta ao
Café Portugal que desde há 70/80 anos é usado outro material para dar corpo às velas. «A parafina queima melhor do que a própria cera de abelhas, não deita fumo e deixa pingar pouco» acrescenta. Ainda que trabalhe com uma pequena linha de montagem, a fábrica da família Amado tem uma capacidade de produção que ronda os 400/500 quilos de parafina por dia. A produção depende sempre do tamanho e pesagem das velas.
O pai dos actuais gestores da «Beira Velas» Jorge e Antonino, também aprendeu o ofício com o seu pai, ajudando igualmente na venda das velas pelas redondezas e peregrinações a cavalo. Quando ficou à frente da fábrica, Armando Amado também modernizou um pouco o antigo processo de moldar a cera, usado pelo seu falecido pai, no entanto usava as mesmas caldeiras, rodas e tachos. A cera

passava quente por uma prensa e era fervida num tacho até libertar todas as impurezas; derretida novamente para ser moldada. Com a cera de abelha o processo era mais trabalhoso.
Apesar do pouco uso da cera de abelhas para a feitura das velas, o mestre cerieiro, Armando Amado, tinha 50 cortiços de abelhas do qual aproveitava o mel e a cera. Moldar a cera estava no sangue do cerieiro, pai de dois continuadores da sua arte. Molduras de pés, cabeças, podiam ser encontradas ou encomendadas na oficina. Estes moldes em cera, que enchiam as prateleira da oficina, serviam para pagar promessas de maleitas relacionadas com as partes do corpo representadas. Por encomenda eram feitas, também, as velas com a altura da pessoa, usadas ainda para pagar promessas e velas de altares de igreja, as chamadas tochas.
Sem a utilização que lhes era dada noutros tempos, ou seja iluminar as casas, as velas como nos conta o cerieiro têm, actualmente, como principal destino «o pagamento de promessas, as igrejas e as romarias». A «Beira Velas» vende a sua produção anual que ronda as 45 a 50 toneladas no mercado nacional, incluindo as ilhas, neste caso através de revendedores. Porto e Braga são os melhores clientes.
As velas brancas são as que abundam no pequeno espaço da oficina familiar, embora tenham apostado, em dada altura, no fabrico de velas decorativas. Neste caso, depois da produção da vela normal é -lhe dado um banho de acabamento com as cores de pigmento. Na pequena fábrica existem cerca de 13 cores diferentes. A família Amado não seguiu a aventura das velas aromáticas, pois segundo, Jorge Caetano Amado, «isso equivalia a termos uma estrutura diferente. Precisávamos de exaustores entre outros equipamentos».
É na altura do Natal que oficina ganha outra dinâmica. Os moldes de alumínio ajudam a dar vida à cera decorativa que ganha uma forma festiva e natalícia.
Há uma pergunta que se impõe depois da descoberta do fabrico das velas. Podem ser recicladas após derreterem? O cerieiro explica que periodicamente a oficina recolhe os «restos» daquilo que em tempos fora uma vela - os chamados pingos de cera - que não são reutilizados para a criação de novas velas, porque, segundo Jorge Caetano Amado o material «já não liga convenientemente». A «cera reciclada» pode ser usada para parafinar as mesas, para que fiquem mais limpas e pode servir para encher taças e tigelas em barro, para efeitos decorativos.